De todas as minhas futilidades, acredito que o futebol, seja a maior delas. E mesmo que fale mais alto meu coração alvo e negro paulistano, acabo também por me contagiar com essa energia nacional a cada quatro anos.
De fato me irrita um pouco, tantos temas sendo ignorados pelas mídias para que sucessivas e repetitivas notícias acerca do campeonato mundial sejam exaustivamente divulgadas. Também me incomoda saber que muito mais lixo será produzido, muito mais CO2 será gerado, o que me faz pensar que nossos rituais, sejam eles quais forem, normamente carregam certa dose de estupidez. O que vão fazer com as milhares de vuvuzelas, bandeiras de plástico e todo o tipo de acessório desnecessário, assim que a Copa terminar??
Enfim...dilemas sustentáveis ficarão para um outro post. Hoje quero discutir aqui a importância da copa de 2010 na África do Sul...Porque o Mundo inteiro teve que párar e reparar nesse país tão distante, num continente tão esquecido pelo resto do mundo.
Localizada no extremo sul do continente africano, a África do Sul é um país extremamente multiétinico. Onze línguas oficias são faladas, sendo o inglês o mais predominante. A população é composta em sua maioria por negros (aproximadamente 70%). Ainda assim essa minoria branca , em épocas passadas, foi responsável por um dos regimes mais desumanos e cruéis de toda a nossa história: o apartheid.
O apartheid, que significa separação, foi um regime que impôs a dominação da minoria branca sobre o restante da população: negros, indianos e mestiços. Esse termo foi reconhecido legalmente apenas em 1948, quando chegou ao poder o Novo Partido Nacional (NNP), mas desde o século XVII, quando o país foi colonizado por holandeses e ingleses, essa segregação já existia.
Os negros não podiam ocupar o mesmo transporte coletivo usado pelos brancos, não podiam residir no mesmo bairro e nem realizar o mesmo trabalho, entre outras restrições. Os brancos passaram a controlar cerca de 87% do território do país, o que sobrava se compunha de territórios independentes, mas paupérrimos, deixados aos grupos sociais não-brancos.
Algumas leis que eram aplicadas na época:
- Proibição de casamentos entre brancos e negros - 1949.
- Obrigação de declaração de registro de cor para todos sul-afriacanos (branco, negro ou mestiço) - 1950.
- Proibição de circulação de negros em determinadas áreas das cidades - 1950
- Determinação e criação dos bantustões (bairros só para negros) - 1951
- Proibição de negros no uso de determinadas instalações públicas (bebedouros, banheiros públicos) - 1953
- Criação de um sistema diferenciado de educação para as crianças dos bantustões - 1953
A Lei do Passe concedia a polícia o direito de prender quem fosse flagrado na rua sem a caderneta de identificação.
Em 1950 a oposição ao apartheid ficou mais intensa, quando o Congresso Nacional Africano (CNA), organização negra criada em 1912, lançou uma desobediência civil. Um boicote estimulou a população a deixar o passe em casa e caminhar até um posto policial para se entregar voluntariamente.
Cerca de vinte e mil pessoas se reuniram em frente a delegacia de Shaperville. Um grupo de policiais, sem saber como controlar a multidão, abriu fogo contra os manifestantes, matando 69 e ferindo mais de 180, incluindo mulheres e crianças.
O que era para ser, até então, uma manifestação pacífica, ficou conhecido como o Massacre de Sharpeville.
Em 1962, declarado líder da CNA, Nelson Mandela (principal ícone sul africano do apartheid) foi preso e condenado a prisão perpétua.
Apenas em 1989, quando tomou posse Frederick de Klerk é que começaram a ocorrer as mudanças que tornariam livres aqueles homens e mulheres. Em 1990 Nelson Mandela foi solto e a CNA se tornou legal.
Klerk e Mandela ganharam o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Em abril de 1994, Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul nas primeiras eleições multirraciais do país.
O Parlamento aprovou a Lei de Direitos Sobre a Terra, restituindo propriedades às famílias negras atingidas pela lei de 1913, que destinou 87% do território à minoria branca.
As eleições parlamentares de 1999 foram vencidas pelo candidato indicado por Nelson Mandela, Thabo Mbeki, descartando qualquer tentativa de retorno a uma política segregacionista no país.
Enquanto o resto do mundo colhia os frutos das revoluções feminina, sexual, saudava o capitalismo, a África do Sul vivia num regime arcaico e desumano e descobriu a liberdade há muito pouco tempo.
A Copa estar sendo sediada na África do Sul, deveria servir de ponto de partida para que descubramos mais sobre a história de países que não aprendemos na escola. Sobre as condições deploráveis em que vivem milhões de seres-humanos nesse planeta.
A Europa não tem mais o poder de impor sua autoridade branca para os povos africanos, mas através de suas multinacionais, extrai diamante e ouro do continente, acumula fortunas, faz crescer a econômia de seus países...as custas do trabalho dos africanos, que evidentemente, ficam com a menor parte dos lucros.
Hoje eles podem realmente morar aonde quiserem. Mas será que estão - que estamos - livres, dos ditadores brancos que nos colonizaram? Acredito que não! Essa imposição européia e norte americana, trajada por multinacionais vão continuar a explorar recursos e mão de obra do países subdesenvolvidos e isso nos tornará reféns indefinidamente!
Liberdade...liberdade, abra as asas sobre nós...!