Mai Mukhtar é uma paquistanesa que em 2002 foi vítima de um estupro coletivo em seu país. Diferentemente da grande maioria das mulheres do Pasquistão, que comumente vivenciam experiência atroz semelhante, ela não se suicidou. Correu atrás de justiça, venceu seus medos, virou exemplo e hoje transforma a vida de outras mulheres da sua região.
Mai Mukhtar, divorciada, com então 28 anos, analfabeta, vivia com os pais em uma casa simples, sem energia elétrica e nenhum dos confortos, com os quais nós ocidentais estamos acostumadas, onde plantavam cana-de-açúcar. Ela ensinava, voluntariamente, bordado as mulheres e o Corão para as crianças, da mesma forma como aprendeu: oralmente.
Na aldeia de Meerwal, onde morava com sua família, tinha como vizinhos os Mastoi, de uma casta superior, descendentes de guerreiros, grandes agricultores, que com a cumplicidade da polícia local, tratavam de ditar as leis e regras do lugar.
No Paquistão, e na maior parte do oriente, como bem já sabemos, as muheres são criadas para apenas obedecer, jamais questionar e servir a seus maridos até o fim de seus dias. A religião, defende uma suposta superioridade masculina, que ainda assim não justifica os crimes que esses homens cometem indescriminadamente sem que ninguém intervenha.
Milhares de mulheres são sentenciadas por estupros coletivos, pelas tribos locais, no Paquistão. Milhares de homens, com os motivos mais fúteis e mínimos, se vingam nas mulheres: estuprando-as, queimando-as, mutilando-as. E não falo do século passado ou retrasado, falo dos anos 2000.
O irmão de Mai Mukhtar, na época com 13 anos, foi acusado de burlar com uma moça, de mais de 25 anos, da casta superior, os vizinhos Mastoi, que na verdade buscavam gerar conflitos com os pequenos agricultores, afim de dominar suas terras. Regidos por esse motivo mesquinho, que se alastra por cada pedaço de terra deste planeta, condenaram Mai Mukhtar a pagar pelo “suposto crime” do irmão. Ela foi estuprada por quatro homens.
O líder religioso, numa das assembléias, relatou o fato, mantendo uma postura de defesa a Mai Mukhtar, buscando justiça. Entre os participantes da assembléia, estava um jornalista. Ele publicou a notícia e poucos dias depois a polícia estava na casa de Mai Mukhtar para colher seu depoimento. Ela chegou a pensar em omitir os fatos, com medo dos vizinhos criminosos, incentivada pelos policiais locais, que inclusive, sabotaram seu depoimento. Analfabeta, ela apenas assinou seu alterado depoimento com a marca de sua digital.
Seu pai manteve-se firme ao seu lado e então, uma simples, analfabeta e humilde mulher foi tocada pela sede da justiça e não mais se calou. Enfrentou a corrupta policia local, teve o auxílio de ongs e jornalistas do mundo inteiro...ela foi até o fim...
Mai Mukhtar teve sorte, com toda a certeza, os holofotes do mundo inteiro direcionados a ela, um juiz decente, responsável pelo primeiro julgamento, pessoas de bem que se uniram a ela, sua família que não a desamparou em nenhum momento. A grande maioria das outras tantas mulheres também estupradas e mutililadas chegam a ser condenadas pelo próprio país, nesses casos, enquanto o homem, criminoso, goza sua liberdade plena, sem ser incomodado.
Só nos sete primeiros meses de 2007, 1511 mulheres foram vítimas de estupros coletivo no Paquistão e 176 condenadas a morte “em nome da honra”.
No primeiro julgamento seis homens foram condenados a pena de morte. Mas como acontece aqui, foram soltos após terem recorrido. A Suprema Corte decidiria finamente o que lhes iria acontecer. Não achei informações sobre estes demônios que a estupraram e a sua setença final (se alguém souber, por favor me diga).
Mas de fato, a moral da história, não foi a justiça, tão normalmente afastada de todas nós. A moral da história é aonde conseguiu chegar uma mulher marcada por um sofrimento indescritível, um dos maiores pecados cometidos pela humanidade...ela não parou por ai...
Com o dinheiro da indenização que recebeu, com a ajuda do Canadá e outras nações e instituições, ela fundou uma escola. Onde podem estudar meninas, no país onde a grande maioria das mulheres morre analfabeta, Mai Mukhtar dá a chance para que a próxima geração tenha mais perspectiva, dignidade, conhecimento e possa chegar tão ou mais longe que ela, e sem nenhuma tragédia no meio do caminho.
Como muitas mulheres vítimas de seus maridos algozes, buscam o auxílio de Mai Mukhtar, ela também fundou um centro, onde atende a todas essas mulheres vítimas de todos os tipos de violência doméstica ou cometida por terceiros, inimigos de seus maridos ou família.
E ela não há de párar por aqui. Transformou sua história e está trasnformando vidas...
Mai Mukhtar foi eleita, pelos Estados Unidos, em 2005 “ Mulher do ano”. Em maio de 2007 foi ortogada com o North -South Prize, por contribuição notável aos direitos humanos.
O livro Desonrada, best-seller, co-escrito pela francesa Marie-Thérèze, narra toda a história de Mai Mukhtar. Para quem quer se aprofundar vale a leitura. No livro fica claro a política deslocada do país, a omissão escancarada da ONU, o poder dos mais ricos, o sofrimento velado de outras mulheres e ainda assim, o bom caráter de alguns indivíduos, que vieram somar e completar essa história. Li numa tarde! Muitas vezes numa revolta e desesperança atordoantes, mas a lição é clara e o exemplo atemporal: Ela foi longe...
“- Não! Quero que me dê uma resposta precisa. Ou eu tenho a certeza de que eles estão na prisão, ou não saio do seu gabinete.
Naseem traduz para o urdu, no mesmo tom decidido que eu adotei.
Quem diria que eu seria capaz de falar assim com o primeiro ministro do governo do meu país? Eu, Mukhtar Bibi, de Meerwala, camponesa dócil e calada, transformada em Mai, a grande irmã respeitada. Como eu mudei!”
trecho do livro Desonrada.