Olá meninas... Quanto tempo, não? Pois é... sem desculpas esfarrapadas, não tenho passado por aqui porque não tenho tido assunto. Aqueles hiatos criativos que - quero crer - acontecem com todo mundo.Não sei exatamente quando o meu acabará, mas informo que estou lutando contra. E nessa luta, andei observando um "fenômeno bloguístico" (como diria a doce Thata) que me chamou a atenção.
Algum tempo atrás – não muito – o que separava as meninas mortais das “it girls” era basicamente a Louis Vuitton que a segunda categoria carregava para cima e para baixo, fazendo sol ou chovendo, não importando o lugar, o compromisso, o horário ou qualquer outra variável. Quem tinha uma era a tal. Quem não tinha era pobre ou fracassada - ou os dois.
Havia ainda aquela sub categoria de “it girl” que – para não correr o risco de ser confundida com uma “noveau riche” qualquer e certificar-se que o mundo inteiro soubesse o quão bem nascida era ela – garantia que as suas bolsas foram herdadas da vovó e não simplesmente compradas no ano passado.
Ao menos não as de modelos atemporais. Esses tinham que ser de família para garantir a estirpe, enquanto os lançamentos eram rapidamente adquiridos para demonstrar o poder de compra e o quão "antenadas" eram.
Na realidade acho que essas moças não estão mortas. Aliás, tenho certeza disso. Basta dar uma voltinha pelos it blogs de moda para ver o quão vivas e atuantes estão as tais meninas bem nascidas. Mas o foco mudou um pouco.
Nenhuma delas mais é fotografada com sua boa e velha LV Speedy e ser vista com uma LV Neverfull então – deus as livre!!! – seria uma queimação de filme sem fim! Nem falam mais nessas bolsas como se jamais as tivessem adorado.
Agora o que demonstra o quanto antenada se é na moda e nas tendências (odeio esse termo) é usar uma Celine ou uma Hermes. Outras grifes também têm sido muito festejadas mas entre todas elas, um ponto em comum: os nomes das marcas já não são mais tão evidentes. Isso está out of the fashion rules.
Reconhece-se a bolsa pelo modelo, pelo número de horas que se passa navegando por sites de moda, lendo a Vogue (claro que não a nacional), e assistindo os programas que cobrem as semanas de moda mundo a fora.
Não é mais "it" usar aquela bolsa cheia de monogramas identificadores de seu fabricante ou com os símbolos evidentes da marca. Chic é que o nome esteja quase imperceptível na peça.
Assim, os mortais não percebem, mas a assídua consumidora de informações de moda ao bater o olho naquela foto da blogueira, logo reconhece que ela sustenta um nome de família tradicional. A LV monografada ficou para a "segunda linha" de pessoas.
Quem ainda as usa não passa de uma pobretona que trabalha para viver e juntou uns trocados que lhe permitiram entrar um dia numa loja Louis Vuitton e comprar uma Speedy em 6 parcelas no cartão (claro que não sem sacrificar parte considerável do orçamento mensal). E quem quer ser igual a essa "pé rapado"?
Essa moça ninguém quer imitar. Ninguém quer ser igual. Todas querem ser a outra. A bem nascida. A que ostenta a profissão de blogueira. Que vai à todas as fashion weeks, que conta no seu blog sobre a revisão do seu Audi, que fotografa o look do dia que, somando, chegamos fácil fácil a R$10.000,00 (reitero, num único dia).
Sempre tive curiosidade de saber como elas conseguem fotografar o look todos os dias! Que coisa mais chata isso! Eu morreria de tédio se tivesse essa obrigação! E olha que sou fotógrafa! Ando agarrada na minha câmera para cima e para baixo e fotografo tudo o que vejo!E para onde elas estão indo? Essa é outra curiosidade minha.
Sempre são fotografadas num campo, num parque, numa estrada com aparência de local deserto... Essa gente não trabalha não? Não têm horário a cumprir? Não tem chefe? Não tem louça para lavar quando chega do trabalho? Não troca fraudas?
Andam com um fotógrafo a tira colo ou agarradas a um tripé que montam, temporizam a câmera e ficam pulando igual retardadas na frente dele? Enfim... tudo muito estranho para mim.
Ao que me parece, ou são realmente desocupadas com o dia inteiro para pensar nisso e ricas o suficiente para pagar um fotógrafo para andar com elas o tempo todo (sou fotógrafa, sei exatamente quanto isso custa) ou são desocupadas que se juntam para pensar nisso o tempo todo e fazer parecer que a vida se resume em como se está vestida, que legal tomar café em plena terça-feira as 15:00 naquele bistrô badalado, como se isso fosse a realidade da maioria de nós.
Tenho muita roupa no meu armário. Mais do que eu usaria num ano inteiro quase sem repetir a mesma combinação, apenas as peças. Tenho um monte de sapatos. A maioria que nem uso. Tenho várias bolsas grifadas. Todas elas compradas com o resultado do meu trabalho. Conheço muitas meninas que também tem todas essas coisas mas que estranhamente não se alimentam disso.
Não ganhei nada de ninguém que não seja da minha família. Não participei de encontrinho nenhum financiado por empresa nenhuma. Não tenho anúncio nenhum no meu blog. E nem elas. Trabalhei. Só isso. E gastei meu dinheiro da forma que mais me agradou. E assim ainda faço. Assim como essas meninas que compram as coisas que desejam sem a mórbida necessidade de escrever um post em seus blogs sobre isso!
Confesso que também aposentei um pouco as minhas LV’s só que por uma razão um pouco diferente. Detesto desde sempre usar o que todo mundo usa. Costumo ser do contra. Se todo mundo usa óculos de acetato gigantes, uso o meu aviador. Quando todos só querem saber de skinny jeans, uso saruel de linho. Se o povo só quer usar color blocking, saio de preto dos pés a cabeça.
Prefiro preservar minha individualidade a andar uniformizada por aí.
Assim, há algum tempo já não faz mais sentido usar as minhas queridas e extremamente resistentes LV’s. As tenho deixado mais vezes em casa descansando até que a febre passe e todas as meninas comuns migrem para a Celine, para a Hermes, para outra qualquer que esteja no último grito da moda e todas as "it girls" apontem para alguma outra grife que ninguém ainda tenha se dado conta ou seja absolutamente inacessível à quem simplesmente trabalha para ter as coisas.
Essa será a hora de desenterrar as minhas Neverfull em que cabe a vida dentro e que – para quem costuma trabalhar, entenda-se, 10 horas por dia fora de casa – não há bolsa melhor!
E se eu resolver mencionar as meninas mega estilosas que não têm bolsas e sapatos e roupas grifadas? Ou porque não tem dinheiro para isso, ou porque acham absurdo gastar 5 mil numa bolsa ou porque têm outras prioridades ou por qualquer que seja o motivo. Estariam elas condenadas a ser da "segunda linha" por causa de uma bobagem imposta por meia dúzia de pastoras e milhares de ovelhas bem adestradas? Quero crer que não!
Não posso me furtar a observar e pensar. Sem me preocupar em apontar os certos e os errados da questão, tenho que pensar sobre porque não queremos nos espelhar em advogadas, médicas, engenheiras, enfim... mulheres que saem de casa de manhã e voltam a noite depois de um dia inteiro de trabalho.
Que passaram anos de suas vidas trabalhando como auxiliares, balconistas, assistentes durante a mesma exaustiva jornada diária para poder pagar a faculdade a noite, onde já se chegava esgotada, enquanto as bem nascidas estudavam na PUC de manhã e a tarde passeavam no shopping e nas férias iam para Nova York - tudo caído do céu.
Não acho realmente que ser rica é pecado. Que vir de família abastada é demérito. Claro que não. O que questiono é a razão de fazer disso um estilo vendável como se fosse possível comprá-lo em 10 vezes sem juros. Isso é um desserviço!
Voltando à nós, por que não queremos ser iguais às que chegam em casa depois do dia de trabalho e não encontram a mesa posta pela empregada e nem o filho dormindo ao lado da babá. De banho tomado. Alimentado com o leite de R$45,00 a lata?
Por qual razão desejamos tanto a vida da blogueira que tem um milhão de acessos, que é fotografada com a Constanza Pascolato, que vai – como num passe de mágica – à todas as semanas de moda financiadas por sabe deus quem?
Qual a razão desse nosso desejo? E da repulsa pela vida comum? Pelo escritório? Pela casa que só tem faxineira uma vez por semana? Pela escolinha que deixamos os filhos para cumprir nosso horário de trabalho? Pelo nosso carro Peugeot, GM, VW?
Se esse desejo nos acomete de vez em quando, pode ser apenas uma compreensível e merecida fuga da realidade menos glamourosa que temos.
Mas se isso nos atormenta, arranca nosso dinheiro do banco – ou pior – do orçamento, nos faz sentirmo-nos inferiores à moça que tem 8 sobrenomes, que saiu da casa dos pais para se casar e apesar de não ter trabalho fixo, tem babá, empregada, camareira, faxineira, copeira, motorista, tudo para ajudá-la no seu "corrido dia de blogueira", chegou a hora de procurarmos ajuda profissional!
Nada há de errado em gostar e usar determinadas grifes. Se o seu orçamento permite, compre, use, aprecie, um dia será o nosso último dia sobre a terra e dela levaremos apenas as lembranças dos bons momentos que passamos e os recalques das oportunidades que perdemos. Cuidemos para que o primeiro grupo de sentimentos seja maior.
Mas apesar disso, atentemos também ao fato que onde quer que estejamos, não só nossas lembranças mas também nossos valores estarão sempre conosco. E se eles não forem valores admiráveis, não estaremos satisfeitas com bolsa nenhuma, com roupa nenhuma, com grife nenhuma, porque o conteúdo estará podre e tudo o que é podre fede! Pensemos nisso... Eduquemos nossos desejos...












